MATÉRIAS

A construção civil é um segmento da indústria que têm gerado impactos visuais e ambientais. Grandes empreendimentos alteram a paisagem e geram resíduos sólidos: tijolos, telhas, revestimentos cerâmicos, vidros, gesso, madeira e plásticos, entre outros, são exemplos dos materiais descartados nos processos de construção.

Raphael Tobias de Vasconcelos, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, pesquisa a gestão desse tipo de resíduo. Estuda o processo de gestão, as quantidades produzidas e faz análises da caracterização dos resíduos e do potencial de aproveitamento. Ele fala à Minas Faz Ciência sobre os resíduos sólidos gerados pela indústria da construção e sobre soluções sustentáveis para o reaproveitamento desse tipo de material.

MFC: QUAIS SÃO OS RESÍDUOS SÓLIDOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL?

Raphael Tobias: Antigamente, tratava-se como se fosse o entulho da construção: cimento, areia, argamassa etc. Hoje, além desses materiais mais tradicionais, aparecem agora como resíduos da construção civil alguns plásticos, metais e papeis, que servem como embalagem de outros produtos ou que são usados em parte construção. Há também resíduos como as latas de tintas, antes consideradas perigosas, em função da presença de metais pesados. E também materiais de dragagem e de limpeza. É uma quantidade grande de materiais em proporções distintas, que dependem do tipo de obra.

MFC: QUAL A DIMENSÃO DA GERAÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL?

Raphael Tobias: Uma parte passa pelo controle de órgãos públicos de fiscalização, outra parte é feita clandestinamente: feito em locais onde o poder público tem pouco controle. Mas fala-se em 1 kg por habitante/dia. São milhões de toneladas acumuladas. Então, apesar do material não ser necessariamente perigoso, pelos volumes descartados ele oferece muito transtorno e tem impactado zonas urbanas e rurais.

MFC: QUAIS SÃO OS IMPACTOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS?

Raphael Tobias: Há impacto visual e impacto sobre o trânsito. Do ponto de vista ambiental, se esse material é descartado de maneira inadequada, acaba indo parar nos leitos dos rios, provocando assoreamento. Dificulta também a vazão dos rios e começa a oferecer resistência, impedindo que a água flua. O assoreamento acaba ainda aumentando a proliferação de vetores de doenças. Nesses materiais aparecem pontos de retenção de água que acaba favorecendo o aumento do número de mosquitos, por exemplo.

MFC: QUAIS SÃO SOLUÇÕES POSSÍVEIS? COMO A CONSTRUÇÃO CIVIL PODE GERAR PROCESSOS MAIS SUSTENTÁVEIS?

Raphael Tobias: A solução começa com um bom projeto arquitetônico e de engenharia, que já prevê o aproveitamento correto dos materiais e que evite muita perda. Por exemplo, algumas esquadrias são medidas com 6 metros. Se um projetista determinar que a dimensão de uma janela vai ser um valor de 1,5, 2 ou 3 metros, ao ser cortado, é possível aproveitar tudo do material. Se for um valor que não seja múltiplo de 6, vão sobrar pontas. Então um bom projeto prevê o aproveitamento tão integral quanto possível dos materiais. Depois, são importantes alguns cuidados na obra, para evitar a geração de resíduos e, se gerado, a separação dos materiais pensando em um possível reaproveitamento.

MFC: NAS UNIVERSIDADES E CENTROS DE PESQUISA, O QUE ESTÁ SENDO PENSADO PARA CONFECCIONAR NOVOS MATERIAIS OU PARA TRAZER SOLUÇÕES MAIS SUSTENTÁVEIS?

Raphael Tobias: Alguns experimentos são no sentido de produzir materiais novos, reaproveitando materiais já usados e garantindo condições de qualidade. Conhecer esses materiais, saber em que proporções eles podem ser misturados e o tipo de aproveitamento que pode ser feito são passos essenciais nesse processo. São formas de aproveitar essas sobras de uma maneira mais fácil e eficiente.

Mas o grande segredo, independente da pesquisa, é a separação desse material no momento da geração. É possível aproveitar agregado com agregado (cerâmica com cerâmica, vidro com vidro, etc), mas algumas misturas não dão certo. O material precisa ser separado pensando nesse eventual reaproveitamento.

E por mais que exista alguma tecnologia adequada, se não houver uma participação determinada das pessoas, em todos os níveis, engenheiros, executores e compradores, nada vai funcionar. É preciso que a sociedade tenha esse nível de consciência para que a tecnologia possa ser usada de maneira conveniente e completa.

Fonte: Minas Faz Ciência 


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