MATÉRIAS

Na sala de espera, aguardamos. Ou apenas observamos impacientemente o tio-tac do relógio, o tempo que passa. Qualidades e elementos de uma boa arquitetura parecem se dissolver pelas paredes. Nos aeroportos, edifícios públicos ou consultórios, nos espaços da ociosidade e também nas bolhas que habitamos ou ainda nos espaços sagrados e meditativos onde procuramos nos afastar de tudo e de todos, os limites parecem cada vez menos claros. Cada dia mais estes espaços fazem parte das nossas vidas. Uma espécie de purgatório entre o inferno da realidade cotidiana e o paraíso do espaço social virtual - ou vice versa. Como se revela a arquitetura destes espaços vazios de significado e como deveríamos projetar um espaço que não necessariamente precisa aparecer? O que esses espaços nos revelam sobre o futuro da própria arquitetura?

À primeira vista, não muito. Geralmente são espaços sem hierarquia definida ou um objetivo claro. Geralmente são espaços entre, pois apenas servem para nos levar do nada à lugar nenhum. Mobiliários de plástico às margens, não correspondem a nenhuma atividade específica, mas apenas a um corpo que espera na beira da cadeira. Espaços capazes de criar ainda mais ansiedade ao invés de opor-se à ela.

Entretanto, estes espaços parecem ter uma espécie de beleza insólita. Algo que não necessariamente é bom, um quase nada ou quase tudo. Um universo de possibilidades. Historicamente, a arquitetura tem produzido espaços com um objetivo, um significado. Edifícios são fortalezas e palácios, teatros ou museus. Os arquitetos projetam espaços para acolher a vida humana, para dormir, comer ou trabalhar. A estrutura desses espaços, seus materiais e proporções e até mesmo o mobiliário são respostas diretas e definidas pelos seus usos. Espaços também acabam sendo limitados por sua definição.

Certamente, sempre houveram estes lugares entre algo e alguma coisa. Pátios e varandas são espaços agradáveis, bem como um hall de entrada, onde muitas vezes a arquitetura começa ou termina, uma porta de entrada onde esperamos ansiosamente para ver o que há lá dentro. Entre o interior e o exterior há uma série de acontecimentos que absolutamente não estão construídos. Não estamos nem dentro nem fora, mas exatamente aonde as possibilidades encontram-se mais presentes. Esperamos por uma conexão, esperamos pelo porvir enquanto habitamos um espaço à margem.

Nas últimas décadas, no entanto, assistimos uma transformação destes espaços residuais. Lugares que surgiram em resposta ao desenvolvimento dos sistemas de transporte público e à burocracia da sociedade moderna. Eles também se espalharam em forma de cafés e espaços semi-públicos, onde apenas esperamos  alguém ou que algo aconteça. Entretanto estes espaços não são como os foyers dos antigos teatros ou das antecâmaras dos banhos romanos, onde também se esperava, mas com um claro propósito social. Em nossos espaços limbo contemporâneos, apenas aguardamos.

Comparativamente, estes espaços são equivalentes às bolhas invisíveis que carregamos conosco. Não estamos presentes nem no espaço público nem no privado, mas permanecemos constantemente em algum lugar entre, conectados apenas às experiências que compartilhamos com os amigos nas redes sociais. Na verdade, estamos cada vez mais nesta espécie de estado permanente de semidistração e desconexão-conectada. Esta arquitetura impulsionada pela virtualidade das relações sociais tem sido até agora, evidentemente, deixada de lado pelos arquitetos.

Espaços limbo são na verdade uma dupla oportunidade: por um lado, precisamos refletir sobre como estamos projetando estes espaços entre, onde passamos cada vez mais tempo, mas que no fim, sempre é a última coisa com a qual nos preocupamos quando projetamos um edifício; por outro lado, deveríamos encarar esses espaços como uma oportunidade para investigar uma nova arquitetura, além de seus limites físicos e funcionais, das relações sociais no sentido tradicional da coisa. Poderíamos encarar a existência destes espaços marginais como um reflexo das nossas novas formas de sociabilidade. Podemos estar e não estar ao mesmo tempo, conectados e desconectados, ainda que por um breve momento.

Fonte: Archdaily 


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