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Embora os cemitérios tenham servido por muito tempo como um lugar no qual podemos honrar e recordar nossos entes queridos, eles historicamente também atuaram como epicentros da arte, arquitetura e paisagismo. No final do século XIX, os cemitérios evoluíram a partir de espaços urbanos superlotados e insalubres, para centros sociais e semelhantes a parques. Nas cidades carentes de parques públicos, os cemitérios tornaram-se destinos populares para piqueniques, lazer e outras reuniões familiares.

Desde então, a maneira como pensamos sobre cemitérios e seus projetos evoluiu ainda mais. Os tradicionais enterros de caixões e serviços de cremação vêm sendo substituídos por urnas biodegradáveis e cinzas transformadas em diamantes, entre outras inovações. Que implicações estes desenvolvimentos podem ter no espaço e no desenho de cemitérios? E como esses memoriais podem ser projetados a considerar tanto os rituais pós-morte quanto as preocupações ambientais?

 

Em uma palestra de 1976 dada por Carlo Scarpa intitulada “Can Architecture be Poetry?”, o arquiteto veneziano disse: “Eu queria mostrar algumas maneiras pelas quais você poderia abordar a morte de maneira social e cívica e, além disso, que significado há na morte, na efemeridade da vida - além dessas caixas de sapato”. Scarpa se referia a um projeto que iniciara vários anos antes, o cemitério de Brion Vega, que ele imaginava ser mais do que apenas um local de descanso final, mas um tratado sobre mortalidade para as futuras gerações. O próprio Scarpa seria enterrado lá apenas dois anos depois.

Outra referência histórica e sem dúvida um dos mais importantes locais do pós-modernismo é também um cemitério. Considerado como um dos projetos mais importantes de Aldo Rossi, o cemitério de San Cataldo funciona como uma metáfora diferente do intrincadamente detalhado Brion Vega de Scarpa. San Cataldo é visto como uma "cidade para os mortos", com um pátio que emoldura um ossário cúbico envidraçado, portas e um telhado. 

Mas, por mais influentes que esses projetos possam ser, nem Brion Vega nem San Cataldo são referências relevantes aos desafios enfrentados pelo projeto dos memoriais atuais. Eles são memoriais como exercícios arquitetônicos, desconectados de fatores ambientais ou preocupações espaciais.

Em um livro recentemente publicado pela Arch Out Loud, intitulado “Death + Architecture”, Karla Rothstein, da DeathLAB da Columbia University explica como as cidades devem evoluir para acomodar a morte. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde e Censo dos EUA projeta que mais de 4,25 milhões de pessoas morrerão apenas nos EUA em 2050. Com isso em mente, a equipe de Rothstein projetou um local de memória chamado “Constellation Park”, que utiliza infraestruturas e espaços urbanos existentes para apoiar uma rede ambientalmente amigável de estruturas no horizonte. Suspensas sob a ponte de Manhattan, as peças individuais juntas conformam configurações cilíndricas de luz, funcionando como um memorial e uma arte pública. A energia da vida urbana ao redor do local acomoda as fases de luto e lembrança. Este projeto serve como um lembrete da finalidade física da morte ao mesmo tempo em que reconhece a transitoriedade da vida - integrada no próprio tecido urbano.

O projeto vencedor do concurso Arch Out Loud, apresentado no mesmo livro, mostra outra maneira de pensar sobre a lembrança na vida após a morte. A equipe chinesa criou seu projeto em torno do lema “o fim da vida não é a morte, é ser esquecido.” O conceito emprega balões vermelhos biodegradáveis com uma pequena caixa das cinzas da pessoa morta dentro. Com o passar do tempo, o balão começa a subir e faz uma pausa toda vez que um membro da família vem visitar o balão. Eventualmente, a pessoa será esquecida, o balão subirá no céu, soprará na atmosfera e explodirá. Com a chuva e o vento, as cinzas cairão lentamente de volta à terra. Esse processo serve como um lembrete para todos na cidade de que devem visitar seus familiares e que o processo de vida e morte é passageiro.

Os projetos que nos ajudam a lamentar a perda de amigos e familiares estão se tornando cada vez mais relacionados à arquitetura a cada dia que passa. Ao evoluir ainda mais a relação entre arquitetura e morte, poderemos encontrar novas maneiras de permitir que as pessoas saiam respeitosamente da terra sem nenhum impacto negativo de longo prazo. Se não, podemos prejudicar o meio ambiente, ficar sem espaço e enfrentar graves consequências por nossas ações.

 
 
Fonte: Archdaily

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