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Kristoffer Roxbergh, sócio do escritório escandinavo White Arkitekter, vem ao Brasil para falar sobre como a arquitetura pode criar um senso de comunidade e melhorar a relação entre as pessoas e as cidades

Karlshamns Kallbadhus, casa de banho com sauna e acesso ao lago, projetada pelo escritório White Arkitekter na Suécia (Foto: White Arkitekter/Divulgação)Karlshamns Kallbadhus, casa de banho com sauna e acesso ao lago, projetada pelo escritório White Arkitekter na Suécia (Foto: White Arkitekter/Divulgação)

A Hometeka, marca parceira de Casa e Jardim, traz ao Brasil o arquiteto Kristoffer Roxbergh, sócio do escritório escandinavo White Arkitekter, um dos principais coletivos de arquitetura em atuação no mundo. Destinada a profissionais e estudantes de arquitetura, urbanismo e design de interiores, a palestra, que acontecerá no próximo dia 23 (quarta-feira), a partir das 17h, na EBAC, em São Paulo, terá como tema “como a arquitetura pode criar um senso de comunidade, ao estilo nórdico”.  A apresentação será seguida de um bate-papo com o público intermediado pelo professor da Escola de Arquitetura da UFMG e sócio da Hometeka, Roberto Andrés. Para se inscrever, clique aqui. Confira a seguir uma conversa exclusiva com Kristoffer.

O White Arkitekter é o maior escritório de arquitetura da Escandinávia, com mais de 900 funcionários. Conte um pouco sobre ele.
Nós acreditamos muito no poder transformador da arquitetura. Essa é a essência do nosso escritório. Começamos na década de 1950, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando a sociedade estava se recuperando e as cidades se reerguendo. Por conta disso, temos muita vontade de fazer diferente, de repensar conceitos. Fomos crescendo de forma orgânica e hoje já contamos com dez escritórios espalhados pela Suécia, Dinamarca, Noruega e Inglaterra. Somos um coletivo e é como se todos fossem sócios, o que nos dá muita liberdade e poder de criação. Assinamos projetos em diversos lugares e nos preocupamos muito com o contexto em que ele será inserido e em como podemos contribuir para a cidade e para as pessoas que moram ali.

O tema da sua palestra é “como a arquitetura pode criar um senso de comunidade”. Você pode adiantar um pouco o assunto para nós?
Claro! Os muros altos em quase todas as construções e o foco no individual ao invés do coletivo é um problema mundial que deve ser combatido e visto com atenção. O espaço público foi deixado de lado por muito tempo, mas é preciso dar valor a ele. O que eu quero mostrar na palestra é que é possível criar esse senso de comunidade a partir de três grandes temas: a natureza, as casas e os espaços públicos. Temos dois projetos recentes em que criamos pontos de encontro na água para nadar e socializar. Grandes estruturas escultóricas em cima da água que acabaram se tornando lugares importantes para nós e para a cidade e seus moradores. O potencial da arquitetura se transforma em algo ainda maior quando ela é criada pensando nas pessoas.

Um dos pontos de encontro criado pelo escritório em uma praia na Dinamarca, o Kastrup SeaBath conta com vestiários, bancos e pontos para mergulho.  (Foto: White Arkitekter/Divulgação)

Um dos pontos de encontro criado pelo escritório em uma praia na Dinamarca, o Kastrup SeaBath conta com vestiários, bancos e pontos para mergulho. (Foto: White Arkitekter/Divulgação)

Como a arquitetura pode ajudar as pessoas?
Acredito que um dos maiores problemas atualmente é a solidão. Pesquisas mostram que esse sentimento aumenta as taxas de suicídios e de crimes em um modo geral. Há quem pense que os mais solitários são os idosos, mas a verdade é que quem mais sofre com isso são os jovens. A internet ajudou muito a derrubar algumas barreiras físicas, tanto que hoje em dia é possível conversar com uma pessoa que está do outro lado do mundo através de um aplicativo. Mas, ao mesmo tempo, a ela também acabou atrapalhando a relação entre as pessoas no mundo real. Estamos interagindo cada vez menos ao vivo, somente virtualmente. Por isso, acho que um dos grandes desafios da arquitetura é pensar como tornar as casas e os ambientes públicos mais propícios para a interação entre as pessoas. Estamos trabalhando bastante nesse sentido, desenvolvendo moradias coletivas e pequenas intervenções em projetos mais conservadores, como criar áreas comuns mais convidativas, para trazer as pessoas mais para perto, “forçar” uma interação.

Fazer com que as cidades sejam mais inclusivas é um dos caminhos para essa transformação?
Sim, com certeza! É importante criar uma relação especial entre as pessoas e a cidade. Projetos Pop Up, que transformam ruas em um espaço especial, para as pessoas curtirem a cidade por um período específico de tempo, são ótimos exemplos. Fizemos duas ações nesse sentido que foram bem sucedidas e acabamos transformando a experiência em uma cartilha para democratizar essas intervenções urbanas, ensinando como fazer, para quem pedir autorização... Qualquer um pode ter atitudes como essa. Temos que mudar a maneira como usamos a cidade. Precisamos fazer com que as pessoas se sintam donas do espaço, se tornem responsáveis por ele.

 

Por que você decidiu fazer arquitetura?
Porque é uma profissão que combina o lado analítico e o criativo. Me encanta poder solucionar problemas e ajudar outras pessoas. Você vê o resultado, o projeto se transforma em algo concreto e duradouro. Tem começo, meio e fim. Também gosto muito do fato de precisar pensar no futuro, em como aquele material irá se comportar com as mudanças de clima, por exemplo. É muito interessante observar um projeto se desenvolver e se transformar com o passar do tempo.

 

Que prédio você gostaria de ter criado?
Há algumas semanas o Shigeru Ban (arquiteto japonês vencedor do Prêmio Pritzker em 2014) visitou nosso escritório e contou sobre a construção de milhares de abrigos para vítimas de desastres em diversas partes do mundo usando materiais recicláveis, como o papelão. Ele descreve esses projetos de uma forma tão incrível, tão leve. Admiro muito o trabalho dele e gostaria de ter criado qualquer um dos projetos que ele assina.

E que tipo de projeto você ainda sonha em fazer?
Com certeza seria algo relacionado a formas alternativas de viver. Gosto de repensar conceitos, de criar ambientes que se adaptem a novas realidades. Na verdade, estou tocando um projeto atualmente que tem muito a ver com isso. É uma residência estudantil para universitários. Perguntamos para 2 mil estudantes como eles gostariam de viver e, a partir das respostas, começamos a desenhar uma casa em que o coletivo e o individual se misturam. 1/3 dos entrevistados afirmou que gostaria de morar com outras pessoas, mas percebemos que a individualidade também era um fator importante. Então criamos uma casa para seis alunos, em que o térreo é formado por uma grande área comum com sala e cozinha, para que todos possam fazer refeições e estudarem juntos, e o primeiro andar é dividido em seis pequenas suítes, todas com acessos individuais, como uma casa na árvore. Estou muito ansioso para ver o resultado.

Fonte: Revista Casa e Jardim


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