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“Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”. Este 11.º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) possui o título de “Cidades e comunidades sustentáveis” e deve ser atingido até 2030.  Mas, do objetivo à realidade, há um longo percurso.

Ao longo da história recente das cidades, encontramos várias definições que procuraram expressar, cada qual em seu contexto e época, o objetivo central a ser atingido no projeto e planejamento das cidades, sejam elas existentes ou novas: “ideal”, “inteligente”, “dinâmica, “inclusiva”, “verde”, “de serviços”, “resiliente”, “modelo”, “do futuro”, “distribuída”, “compacta”, ”educadora”, “criativa”, “segura”, “informal”, “eco”, “luz”, ou até mesmo entre tantas outras cidades reais e imaginadas, as cidades “invisíveis” de Marco Polo. Então, afinal, como compreender o que envolveria hoje ser uma cidade sustentável?

Como um organismo vivo e em constante transformação estas definições se apresentam como camadas de interação que sempre tiveram um ponto em comum e de intersecção: a cidade real e suas dinâmicas. Na cidade real, as relações humanas interagem em um ecossistema e meio ambiente que geralmente são frutos da própria intervenção do homem. Este ambiente construído, portanto não natural, planejado ou não, é o resultado de uma das possíveis respostas frente a uma intenção de seguir adiante, resolver os problemas existentes ou almejar alcançar novos objetivos.

Assim, a cidade real é a consequência das várias respostas simultâneas de seus diversos participantes, muitas vezes desarticuladas e conflitantes, que trouxeram não só as soluções pontuais pretendidas, mas novos e imprevisíveis problemas. A cidade construída destas realidades dinâmicas surge sempre com mais força destas interações, integrações e conflitos para sobreviver do que do resultado de seu projeto formal.

Assim, a transformação constante da cidade, que é mais rápida do que a sua formalização,  justifica o próprio estabelecimento, por meio de suas instituições, de grupos e sistemas de gestão que possam fazer a interface entre a cidade real e a formal. Isso ocorre não apenas com o objetivo de delimitar e controlar, mas de dar a condição favorável para que as respostas aos problemas possam surgir na mesma velocidade com a qual eles apareçam, sempre mantendo e reforçando o viés dinâmico das cidades e sociedades.

Para que estas possam coletar e processar tal volume de informações provenientes de todas as camadas de interesse e de interação – e para que consigam acompanhar as ações existentes a fim de seguir adiante sobre a incerteza do futuro – será necessário conhecimento e metodologia.

Essa constante evolução da cidade poderá estar limitada não apenas às camadas físicas, como sua infraestrutura, mas também àquelas que estão ligadas à sua cultura e geração de conhecimento. Para criar e manter continuamente uma base sólida, a fim de elaborar as informações que resultarão em soluções futuras, é necessário estar pronto para um volume de informação e de resposta que acontecem praticamente em tempo real. O tratamento destas informações com conhecimento é o que definirá a sustentabilidade de uma cidade.

Os sistemas de projeto, implantação, gestão e operação, muitas vezes importados de outras cidades globais, deverão se adaptar para a necessidade local de cada cidade, trazendo à luz as reais necessidades para que ela exista, sobreviva e seja competitiva nesse ambiente incerto e competitivo. Mas esse território local da cidade talvez não exista mais.

A cidade faz parte, agora, de um contexto sem limites geográficos ou políticos, que deve atender não apenas às suas demandas locais, mas também as de outras cidades que teve a capacidade de atrair. Deve ser capaz de resolver não só os seus problemas, mas talvez também de outras, através da geração do conhecimento útil e relevante para regiões macrometropolitanas e globais.

Finalmente, pode-se tomar o conhecimento sistematizado como o operador da cultura e das informações de um território, onde a gestão estratégica da geração de alternativas vem da correta formatação das bases de dados, normas, culturas e tecnologias existentes. Esse conjunto forma um organismo vivo que compõe a matriz para se analisar e propor os novos escopos de projetos de cidades.

Os escopos de tipologias de formas de cidades e seu ambiente construído fornecem escalas de soluções para as novas complexidades, através de simulações e análises múltiplas de decisão, permitindo o surgimento de novos sistemas e adjetivos que possam de fato dinamizar e serem mais do que definem.

Cada nova nomenclatura traz consigo a sua definição de cidade, sua resposta para o conceito de sustentabilidade do ambiente construído. O peso e importância dada a cada camada e dimensão em resposta às informações coletadas irá refletir na característica e na capacidade de resistir e de se transformar, definindo a sua dinâmica. As diferentes respostas, todas elas válidas e possíveis – uma vez que não é possível se conceber uma única solução para cada problema – será o reflexo cultural, social, econômico e ambiental de cada cidade, cada qual com a sua identidade.

Portanto, a tentativa recente de criar mecanismos para dar acreditação às certificações de cidades sustentáveis apenas refletem uma das possíveis fotos instantâneas e com um entorno recortado e predefinido. Por si só, esse mecanismo não é suficiente para garantir algo como sustentável ou autossustentável.

A sustentabilidade não pode ser observada apenas quando atingir os objetivos individualmente, mas sim, como em um organismo vivo e interdependente, atingindo os objetivos do todo, da rede de cidades, onde cada parte importa tanto quanto o todo. Uma cidade não deveria ser considerada sustentável de fato se na rede da qual ela faz parte existirem cidades que não o sejam.

A transparência na coleta e tratamento dos dados, a metodologia não apenas cientifica, mas também humana, no encaminhamento dos problemas e soluções, continuam tornando a cidade real cada vez mais forte do que a cidade idealizada e formalizada nas definições e certificações. A necessidade cada vez maior de se construir o ambiente real e não apenas virtual, onde as interações de fato acontecem, demandam conhecimento e análise crítica do passado para se formular as questões do presente, sem atrapalhar o futuro.

Então, poderia ser essa a questão da sustentabilidade para uma cidade: respeitar a preexistência e coexistências dos outros e das coisas próprias e estranhas como uma forma de se construir um futuro possível de ser constantemente modificado e melhorado, sem o medo da incerteza.

Afinal, a incerteza é que faz a transformação acontecer como consequência da necessidade de se evoluir com o conhecimento para as novas respostas. Cidades humanas, inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis apenas existirão se deixarmos que elas existam de verdade, não apenas na formalidade e nas certificações.

 Marcelo de Almeida Westermann e Sasquia Hizuru Obata são professores das Faculdades de Engenharia e Arquitetura e Urbanismo da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP)

Artigo escrito por Marcelo e Sasquia

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