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Se algum dia você já “encheu uma laje”, possui então alguma noção de como é feita uma estrutura de concreto (isso será necessário para entender melhor como reciclar o concreto). Mas, se você nunca realizou essa proeza e sobreviveu para ver o churrasco, vamos detalhar um pouco como surgem às maravilhas do concreto.

O concreto é composto por cimento; água, acrescida de areia (classificada no mundo dos capacetes de obra como agregado miúdo); e pedras (agregado graúdo ou brita para os íntimos), assim eles são misturados e lançados na forma para dar formato e depois vão ganhando resistência com o passar do tempo em um processo em que o cimento libera calor (chamado de exotérmico) e solidarizam (processo chamado carinhosamente de pega).

Além desses materiais podem ser adicionados produtos aditivos que auxiliam a execução, como os retardadores de pega. Estes, aumentam o tempo até o concreto endurecer, usados para obras em que o concreto é misturado longe do local final de execução (muito provável que estejam presentes nos caminhões betoneira que causam transito ai nas ruas da sua cidade).

O problema enfrentado atualmente pelo uso de concreto é a extração de grande quantidade de matéria-prima do ambiente e ainda causar impactos ambientais com sobras e materiais descartados. O descarte vindo da construção é chamado de resíduos de construção e demolição (RCD para facilitar). Estima-se que no Brasil, a origem do RCD, seja metade de construções novas e metade de demolições, isso mostra que temos muito material sendo desperdiçado e que pode e deve reciclado.

A tecnologia do concreto reciclado consiste em usar o RCD como agregado, podendo substituir uma parte ou totalmente o material de fontes naturais. O RCD usado depende da aplicação final: podemos usar tijolos cerâmicos e argamassa (cimento, areia e água) para concreto de pavimentação, enquanto os agregados podem virar argamassas novas ou até concreto que irá sustentar edifícios, galpões etc. No caso do uso para concreto, é preciso estudar, separar e avaliar as condições do RCD a ser reciclado, se já tivermos um histórico de como esse material se comporta aí podemos usá-lo ou não com maior certeza.

O concreto pode ser reciclado fresco com um equipamento que lava e separa a brita dos demais materiais, e assim já é encaminhada para reuso. O grande problema é com o concreto endurecido, esse é fragmentado em pedaços menores com britadores (existem vários tipos, depende do tamanho final desejado) e também podem ser moídos para gerar agregados miúdos, depois separados por tamanho e enviados para serem incorporados no concreto novo.

Essa tecnologia ainda pode evoluir muito, atingindo mais e mais usuários. Para isso devemos nos conscientizar do impacto do RCD, que remove material das nossas fontes naturais, cada vez mais escassas, assim como esgotam também os locais apropriado para o descarte; fazer investimentos financeiros em equipamentos (claro que tudo tem um custo, mas é pequeno) para reduzir o custo do material que atualmente é desperdiçado; e investir em pesquisas para tornar cada vez mais viável todo o processo. Os estudos precisam focar também em resolver o fato de o concreto reciclado ser muito variável, e assim entender esse material que possui diferentes resistências, durabilidade, capacidade de deformação sem fissuras.

Para se adaptar a atual falta de agregados graúdos usados no concreto (brita), em locais que não tem fontes para extração, o professor Paulino E. Coleho destaca que em países como a Holanda, Bélgica e Dinamarca foi preciso importar areia da Sibéria e entulho da Inglaterra (isso mesmo, importar areia e entulho!). Esse entulho é reciclado e utilizado no concreto, nesses países estima-se que haja a reciclagem de 90% dos resíduos. Além disso, nossos amigos japoneses já usam dois terços do concreto de demolições em pavimentação de estradas.

E você deve estar se perguntando, como está o Brasil? Aqui, onde as técnicas de reciclagem já estão a 20 anos em desenvolvimento, só reciclamos entorno de 5% do entulho, mas já temos registros de edifícios que utilizaram concreto reciclado em Belo Horizonte, São Paulo, Osasco, Rio de Janeiro e Curitiba. Do ponto de vista acadêmico temos muitos pesquisadores e empresas buscando cada vez mais informações para disseminarmos o uso de concreto reciclado estrutural (que resiste a esforços significativos).

Mas, segundo Yahya Kurama, os Estados Unidos vêm ignorando as pesquisas na área do uso de agregados graúdos reciclados para estruturas com capacidade de resistência a esforços, o que tem gerado uma grande lacuna de conhecimento dessa área por lá, se limitando em aplicações somente com estradas e calçadas. Entretanto, Kurama pretende preencher essa lacuna com seu estudo em 16 fontes de agregados reciclados no Centro dos EUA, e assim checar a durabilidade e o custo no ciclo completo da construção em comparação com o agregado natural. Por fim, responder a pergunta se o concreto reciclado pode ser usado para outras obras lá, além de estradas, como nos edifícios.

Se você gostou do tema e quer saber mais informações sobre as aplicações e vantagens do concreto reciclado, acesse o site da ABRECON (Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição) que, no Brasil, busca ampliar a reciclagem na área da construção.


* Fábio Melle da Silva é Engenheiro civil formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com especialização em projeto de estruturas de concreto pela Fesp/Abece. 

Fonte: Deviante

Artigo escrito por Fábio Melle da Silva

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