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O mês de dezembro é um dos mais festivos no calendário da cultura ocidental. Com o fim do ano se aproximando, as confraternizações se acentuam nas empresas, no comércio e nas praças públicas, culminando nas ceias natalinas e na celebração do ano novo. 

Para a Engenharia e a Arquitetura este período é especial em nosso país, uma vez que se comemora o Dia do Engenheiro em 11 de dezembro e o Dia do Arquiteto em 15 de dezembro. 

O Dia do Engenheiro remete ao decreto de 11 de dezembro de 1933, do presidente Getúlio Vargas, que regulamentou as profissões da Engenharia, Arquitetura e Agrimensura. Por quase oito décadas, este foi também o Dia do Arquiteto, dado que este profissional tinha sua atuação fiscalizada pelo sistema unificado CONFEA/CREA – atual Conselho Federal de Engenharia e Agronomia. 

Com a criação do CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo – mediante decreto do presidente Lula em 31 de dezembro de 2010, 15 de dezembro foi escolhido como o novo Dia do Arquiteto, rememorando o aniversário de Oscar Niemeyer, o expoente máximo da Arquitetura no Brasil. 

A separação dos conselhos profissionais deu origem a uma disputa judicial referente ao campo de atuação de arquitetos e engenheiros, com o CAU defendendo o direito exclusivo do arquiteto – agora também urbanista por definição – de elaborar o projeto arquitetônico, entre outras atividades. O CONFEA por sua vez, atua para preservar o que considera um direito adquirido pela Engenharia. 

Chegamos ao ponto central da questão: muitos leigos, quando pensam em construir, ainda confundem as profissões da Engenharia e da Arquitetura, notadamente no momento da contratação do projeto. Ainda é comum perguntarem num escritório de Arquitetura se o arquiteto pode assinar o projeto ou se será necessário contratar também um engenheiro. O fato é que um arquiteto pode tanto assinar um projeto quanto ser responsável técnico pela obra, bem como o engenheiro, salvo decisão judicial definitiva que impeça o último de atuar como projetista. 

Arquitetos que visitam obras são chamados de engenheiros por pedreiros e serventes, e vice e versa. Se a confusão ainda impera, qual seria a diferença fundamental entre o arquiteto e o engenheiro? Há quem diga que engenheiros projetam obras quadradas e arquitetos projetam obras redondas. Este é um reducionismo barato que definitivamente gera mais preconceito do que real entendimento na distinção das profissões. 

O engenheiro que atua em obras civis não é o engenheiro mecânico ou químico: é o engenheiro civil. Sua formação é justamente em Engenharia Civil. E o que seriam obras civis? Fácil: pontes, viadutos, estradas, barragens, canais, túneis e obras de grande porte, como edifícios de vários andares e grandes vãos. Obviamente, se um engenheiro civil estuda sobre tudo isso ele estaria apto para projetar uma simples casa, não? 

Aí é que entra o arquiteto. Sua formação não se limita às ciências exatas, baseada em cálculos, planilhas, cronogramas e resistência dos materiais. A Arquitetura permeia também as ciências humanas, que englobam inserções no campo da Sociologia, História e Artes Plásticas. Em suma, o arquiteto estuda a ocupação humana dos espaços. Por isso ele também é um urbanista, pois as cidades não são apenas um amontoado de prédios, ruas e avenidas com pontes e viadutos: o primordial é que elas são habitadas por gente. 

Para um arquiteto, não basta apenas deixar uma casa de pé, mas saber como ela pode ser mais útil, prática e confortável para seus usuários, e também como esta casa pode se inserir no tecido urbano, para que ela nunca esteja isolada de seu contexto. O que diferencia o arquiteto do engenheiro, basicamente, é o foco da sua formação. O primeiro é o profissional do projeto e suas variações humanísticas; e o segundo é o profissional da execução, com a maior eficiência possível. 

A prática profissional contínua pode fazer de um engenheiro um ótimo projetista, assim como pode fazer de um arquiteto um ótimo administrador de obras. O ideal seria que cada construção pudesse contar com os dois profissionais, embora a realidade do mercado brasileiro ainda não permita isso - o que pode ser visto em inúmeras obras tocadas no sistema da autoconstrução, com supervisão eventual de arquitetos e engenheiros. A autoconstrução é tolerada inclusive por bancos que fazem o financiamento de obras, embora de modo controverso. 

Portanto, não será restringindo o trabalho do engenheiro que o mercado de trabalho do arquiteto será melhor ou mais garantido. O que deve ser combatido, tanto pelos conselhos profissionais dos engenheiros como dos arquitetos, são os maus profissionais, principalmente aqueles que acobertam terceiros, assinando projetos para pessoas sem formação. Os profissionais que barateiam os projetos, pensando nas comissões e reservas técnicas dos fornecedores de materiais e outros serviços durante a obra, também devem ser combatidos, pois aviltam a profissão como um todo ao centrar sua fonte de renda em propinas, não em projetos. 

Seja arquiteto, seja engenheiro, a verdade é que todos podem se felicitar no dia 25 de dezembro, pois em cada Natal comemoramos, juntos, o nascimento de Jesus, que para bilhões de pessoas ao redor do mundo é o filho do Arquiteto do Universo. Ou seria Engenheiro do Universo? 

Fonte: Fórum da Construção.

* Jean Tosetto é arquiteto e urbanista. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012.

 

Artigo escrito por Jean Tosetto

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